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quinta-feira, fevereiro 26, 2015

Evolução de dentes de dinossauros carnívoros em doutoramento de Christophe Hendrickx (FCT-UNL)

Realizaram-se as provas de doutoramento do Christophe Hendrickx, dia 25 de Fevereiro de 2015, na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de LisboaA tese intitulade “Evolution of teeth and quadrate in non-avian Theropoda (Dinosauria: Saurischia), with the description of Torvosaurus remains from Portugal” é integrada no Doutoramento em Geologia, especialidade em Paleontologia.
O Christophe defendeu a sua tese de forma brilhante e deixou-nos orgulhosos. O trabalho será uma referência sobre a evolução de dentes de dinossauros carnívoros.


Christophe Hendrick no centro, com os membros do júri: Profs Mª Paula Diogo, Miguel Telles Antunes , Octávio Mateus, e Steve Brustte. Prof. Martin Sander em video-conferência atrás.

Provas de Doutoramento do Mestre Christophe Marie Fabian HendrickxDissertação: "Evolution of teeth and quadrate in non-avian Theropoda (Dinosauria: Saurischia), with the description of Torvosaurus remains from Portugal"Constituição do Júri:
Presidente•  Doutora Maria Paula Pires dos Santos Diogo, Professora Catedrática da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa
Vogais•  Doutor Miguel Carlos Ferreira Telles Antunes, Professor Catedrático Aposentado da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa;•  Doutora Ausenda Cascalheira Assunção de Cáceres Balbino, Professora Catedrática da Universidade de Évora;•  Doutor Paul Martin Sander, Professor da Universidade de Bona (Rheinische Friedrich-Wilhelms-Universität Bonn) - Germany;•  Doutor Octávio João Madeira Mateus, Professor Auxiliar da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa; (Orientador)•  Doutor Stephen Louis Brusatte, Reader in Palaeobioligy “School of GeoSciences”, University of Edinburgh – UK.Hora: 14H30
Local: Sala de Actos - Edifício IV

Publicações que resultaram directamente da dissertação de Christophe Hendrickx:
Agora Doutor Christophe Hendrickx

Hendrickx, C. and Mateus, O. 2014. Abelisauridae (Dinosauria: Theropoda) from the Late Jurassic of Portugal and dentition-based phylogeny as a contribution for the identification of isolated theropod teeth. Zootaxa 3759:1–74.
http://dx.doi.org/10.11646/zootaxa.3759.1.1Figures and data

Hendrickx, C. & Mateus, O. 2014. Torvosaurus gurneyi n. sp., the largest terrestrial predator from Europe, and a proposed terminology of the maxilla anatomy in nonavian theropods. PLoS ONE 9 (3): e88905. http://dx.doi.org/10.1371/journal.pone.0088905Figures

Hendrickx, C., Mateus, O. and Araújo, R. in press. A proposed terminology of theropod teeth (Saurischia: Dinosauria). Journal of Vertebrate Paleontology.

Hendrickx, C., Araújo, R. & Mateus, O. in review (accepted). The nonavian theropod quadrate I: standardized terminology and overview of the anatomy, function and ontogeny. PeerJ. PeerJ PrePrints 2:e379v1. http://dx.doi.org/10.7287/peerj.preprints.379v1

Hendrickx, C., Araújo, R. & Mateus, O. in review (accepted). The nonavian theropod quadrate II: systematic usefulness, major trends and cladistic and phylogenetic morphometrics analyses. PeerJ. PeerJ Preprints 2:e380v1.
http://dx.doi.org/10.7287/peerj.preprints.380v1

Hendrickx, C., Mateus, O. and Araújo, R. in press. The dentition of Megalosauridae (Theropoda: Dinosauria). Acta Palaeontologica Polonica. DOI: 10.4202/app.00056.2013 http://www.app.pan.pl/article/item/app000562013.html

Araújo, R., Castanhinha, R., Martins, R. M. S., Mateus, O., Hendrickx, C., Beckmann, F., Schell, N. and Alves, L. C. 2013. Filling the gaps of dinosaur eggshell phylogeny: Late Jurassic theropod clutch with embryos from Portugal. Scientific Reports 3 (1924): 1–8.
http://www.nature.com/srep/2013/130530/srep01924/full/srep01924.htmlFigures

Mais informação online sobre o Christophe Hendrickx: Personal website,  FCT Website

terça-feira, fevereiro 24, 2015

Os plesiossauros e o pedomorfismo



Os plesiossauros de Angola continuam a dar que falar. No estudo liderado por Ricardo Araújo, integrado no Projecto PaleoAngola, publicado no Netherlands Journal of Geosciences descrevem-se novos espécimes de plesiossauros elasmossaurídeos do Maastrictiano inferior de Angola. As análises filogenéticas colocam o táxone angolano como um elasmossaurídeo aristonectine e táxone-irmão de um plesiossauro da mesma idade da Nova Zelândia. Comparações também indicam uma estreita relação com uma forma não identificada anteriormente descrito da Patagónia. Todas estas amostras apresentam uma morfologia osteológica externa ostensivamente imatura, mas a análise histológica do material angolano sugere serem adultos com traços pedomórficos. Por extensão, a semelhança do angolano, o material da Nova Zelândia e Patagónia indica que estes espécimes representam táxones com pedomorfismo generalizado.
O pedomorfismo é um fenomeno de desenvolvimento evolutivo com a retenção de características juvenis em estado adulto.


Plesiossauros elasmossaurídeo de Angola (Araújo et al. 2015)

Ref.:
Araújo, R., Polcyn M. J., Lindgren J., Jacobs L. L., Schulp A. S., Mateus O., Gonçalves O. A., & Morais M. - L. (2015). New aristonectine elasmosaurid plesiosaur specimens from the Early Maastrichtian of Angola and comments on paedomorphism in plesiosaurs. Netherlands Journal of Geosciences. FirstView, 1–16., 2

Abstract
New elasmosaurid plesiosaur specimens are described from the Early Maastrichtian of Angola. Phylogenetic analyses reconstruct the Angolan taxon as an aristonectine elasmosaurid and the sister taxon of an unnamed form of similar age from New Zealand. Comparisons also indicate a close relationship with an unnamed form previously described from Patagonia. All of these specimens exhibit an ostensibly osteologically immature external morphology, but histological analysis of the Angolan material suggests an adult with paedomorphic traits. By extension, the similarity of the Angolan, New Zealand and Patagonian material indicates that these specimens represent a widespread paedomorphic yet unnamed taxon.

segunda-feira, fevereiro 23, 2015

Isótopos de oxigénio e os mosassauros de Angola


Os isótopos estáveis de oxigénio são excelentes indicadores de paleotemperaturas e por isso são usados como um paleotermómetro. Num novo estudo liderado por Chris Strganac usou precisamente estes isótopos para compreender o paleoambiente em que viveram os mosassauros.

Valores de isótopos estáveis de oxigénio em conchas de bivalves marinhos inoceramídeos recuperados em Bentiaba, Angola, são utilizados como um forma de indicar para paleotemperaturas durante o desenvolvimento da margem africana do Oceano Atlântico Sul durante o Cretácico. Os valores de δ18O derivados de inoceramídeos mostram um aumento a longo prazo a partir de -3,2 ‰ no Turoniano Superior para valores entre -0,8 e -1,8 ‰ no Campaniano Superior. Assumindo um valor δ18O oceânico constante, um aumento ‰ ~ 2 pode refletir uma redução da temperatura do ambiente marinho de baixa profundidade em Bentiaba de aproximadamente 10°C. Em Bentiaba os valores são compensados por cerca de + 1 ‰ a partir de registros publicados para Inoceramus em Walvis Ridge. Esta diferença em valores de δ18O sugere uma diferença de temperatura de ~ 5 ° entre as águas costeiras e mais profundas do offshore de Angola. Temperaturas mais baixas implícitas pela curva de δ18O em Bentiaba coincidem com a distribuição estratigráfica de diversos amniotas marinhos, incluindo mosassauros.

Geologia e geoquímica (curva de isótopos de oxigénio) no Atlântico sul (Strganac et al, 2015).
Referência:
Strganac, C., Jacobs L. L., Polcyn M. J., Ferguson K. M., Mateus O., Gonçalves O. A., Morais M. - L., & da Silva Tavares T.(2015).  Stable oxygen isotope chemostratigraphy and paleotemperature regime of mosasaurs at Bentiaba, Angola.Netherlands Journal of Geosciences. FirstView, 1–7., 2

Abstract
Stable oxygen isotope values of inoceramid marine bivalve shells recovered from Bentiaba, Angola, are utilised as a proxy for paleotemperatures during the Late Cretaceous development of the African margin of the South Atlantic Ocean. The δ18O values derived from inoceramids show a long-term increase from –3.2‰ in the Late Turonian to values between –0.8 and –1.8‰ in the Late Campanian. Assuming a constant oceanic δ18O value, an ∼2‰ increase may reflect cooling of the shallow marine environment at Bentiaba by approximately 10°. Bentiaba values are offset by about +1‰ from published records for bathyal Inoceramus at Walvis Ridge. This offset in δ18O values suggests a temperature difference of ∼5° between coastal and deeper water offshore Angola. Cooler temperatures implied by the δ18O curve at Bentiaba coincide with the stratigraphic distribution of diverse marine amniotes, including mosasaurs, at Bentiaba.

sexta-feira, fevereiro 20, 2015

Portugalophis, entre as primeiras serpentes

Numa reviravolta surpreendente no nosso conhecimento sobre a evolução das serpentes, que se julgava ter tido início no Cretácico superior (Cenomaniano ~100Ma), um novo estudo mostra que as primeiras serpentes apareceram 50 milhões de anos antes, no Jurássico Superior, e que Portugal tem uma das mais antigas, agora baptizada como Portugalophis.

Reproduz-se aqui o artigo da Teresa Firmino no Público:


Primeiras serpentes na perspectiva do artista JULIUS T. CSOTONYI


Fóssil de cobra portuguesa é dos mais antigos do mundo

Foi encontrada numa mina perto de Leiria nos anos 1970. Daí viajou para a Alemanha, onde esteve até regressar a Portugal em 2008. Desde então tem sido estudada pela equipa de um paleontólogo canadiano, que agora a incluiu na lista dos fósseis de cobras mais antigos que se conhecem.

Recorde dos países com as cobras mais antigas da Terra: o primeiro lugar vai para Inglaterra, com 167 milhões de anos; o segundo para Portugal, ex-aequocom os Estados Unidos, com 155 milhões de anos; e o terceiro, com cerca de 140 milhões de anos, vai de novo para Inglaterra. Podem arrumar-se assim os fósseis de quatro cobras revelados na última edição da revista Nature Communications, que de uma assentada fazem recuar os vestígios mais antigos destes em répteis em quase 70 milhões de anos. E os da cobra portuguesa remetem para a história de uma antiga mina de carvão na zona de Leiria, famosa entre os paleontólogos de todo o mundo, e para as preciosidades que os museus têm à espera de serem desvendadas.
Visitemos já o local onde se descobriram os fósseis da cobra portuguesa: a antiga mina da Guimarota. Há décadas que é referida em artigos de paleontologia por todo o lado, principalmente porque lá se encontraram fósseis de mamíferos primitivos, do período do Jurássico Superior, com cerca de 150 milhões de anos. Nesses tempos, os mamíferos eram muito pequenos, do tamanho de ratinhos e, os maiores, de ouriços.
Os primeiros mamíferos da Terra tinham aparecido muito antes, há cerca de 230 milhões de anos, tal como os dinossauros. Mas os mamíferos da Guimarota ajudaram a completar uma parte dessa história, mostrando como eram os mamíferos primitivos. A Guimarota forneceu, por exemplo, o primeiro esqueleto de um mamífero do Jurássico, descoberto em 1976: o Henkelotherium guimarotae, que vivia nos ramos das árvores e comia insectos.
Até 1961, extraiu-se lenhite (um carvão) desta mina, altura em que encerrou por falência. Por acaso, dois anos antes, um paleontólogo alemão da Universidade Livre de Berlim (Walter Kühne, acompanhado por um estudante de geologia) veio a Portugal em prospecção paleontológica, à procura de mamíferos em jazidas de dinossauros. Foi então que ouviu falar da última mina que ainda explorava os sedimentos jurássicos da Bacia Lusitânica, e onde talvez houvesse os fósseis que tanto desejava encontrar.
A Bacia Lusitânica formou-se há aproximadamente 150 milhões de anos, quando as massas continentais da Europa e da América do Norte se começaram a afastar e, no meio delas, ia nascendo o Atlântico Norte. A Bacia Lusitânica criou-se na faixa Oeste da Península Ibérica, compreendida entre o Norte de Aveiro e a Península de Setúbal. Eram águas pouco profundas e o Atlântico Norte no Jurássico Superior não era propriamente a vastidão de hoje.
A zona da mina da Guimarota era então um pântano. Num ambiente subtropical, a vegetação exuberante. Havia coníferas, cicas, fetos.
Nas primeiras visitas à mina, Walter Kühne detectou a presença de conchas de amêijoas, fragmentos de tartarugas, escamas de peixes e, a certa altura, o estudante de geologia apanhou um bocado de carvão com um fóssil incrustado e perguntou-lhe: “Professor, isto é aquilo que estamos à procura?” Era o crânio de um mamífero primitivo.
Logo em 1960, Walter Kühne veio para a primeira campanha de escavação e os trabalhos científicos prosseguiram nos dois anos seguintes, apesar de a mina já não ser explorada. Durante a década de 1960, os cientistas foram recolhendo mais material, mas só dos escombros. No entanto, por causa da importância dos fósseis encontrados, a mina foi reaberta entre 1973 e 1982 só para os cientistas. Estava submersa, como agora, e o Estado alemão pagou a operação de reabertura e as escavações.
Fósseis, não só de mamíferos, mas também de crocodilos, peixes, anfíbios, lagartos, dinossauros, pterossauros ou aves primitivas foram sendo levados para a Alemanha. Durante mais de 30 anos, uma única preparadora dedicou-se a tempo inteiro a removê-los do carvão e a deixá-los em condições de serem estudados — o que foi sendo feito por mais de duas dezenas de investigadores alemães ao longo destes anos, que resultaram em mais de cem artigos científicos.
Embora tenham sido os mamíferos a tornar a mina mundialmente conhecida, permitindo a descrição de cerca de uma dezena de mamíferos novos para a ciência, as novidades estenderam-se a crocodilos, peixes, anfíbios ou lagartos. E, agora, às cobras.
Eis a Portugalophis lignites
No artigo na Nature Communications, a equipa de Michael Caldwell, da Universidade de Alberta, no Canadá, classifica os fósseis da cobra da Guimarota como uma espécie e, mais ainda, um género novos para a ciência. O nome: Portugalophis lignites. O género Portugalophis significa “cobra de Portugal”, uma vez que ophis é “cobra” em grego, e lignites vem da palavralignum em latim, remetendo para a mina de lenhite da Guimarota.
Era a maior das quatro cobras descritas, estimando-se que tivesse 1,2 metros de comprimento e, segundo a agência Reuters, pode ter incluído na dieta os minúsculos mamíferos primitivos do Jurássico, bem como pequenos dinossauros, lagartos, aves ou rãs. Numa ilustração divulgada pela equipa, surge representada em cima de um gingko, árvores do Jurássico que ainda existem hoje e que fizeram parte da paisagem da Bacia Lusitânica.
Contemporânea da cobra de Portugal com os seus 155 milhões de anos é a Diablophis gilmorei, também nova para a ciência, encontrada em depósitos fluviais, afastados da costa, no Colorado, Estados Unidos. Mais nova evolutivamente do que a cobra portuguesa e a norte-americana é aParviraptor estesi, descoberta numa zona de arribas em Inglaterra e que tem os já mencionados 140 milhões de anos. De comprimento teria 60 centímetros.
A decana das cobras é, no entanto, a Eophis underwoodi: com 167 milhões de anos, estava nos sedimentos de uma pedreira perto de Oxford, Inglaterra, e o seu corpo teria à volta de 25 centímetros. Comeria peixes pequeninos, girinos e insectos.
Tirando a norte-americana Diablophis gilmorei, que vivia numa zona continental interior, todas as outras cobras tinham como habitat zonas costeiras pantanosas, como a Bacia Lusitânica por onde se passeava a Portugalophis lignites.
As quatro cobras — três novas para a ciência e a quarta, a Parviraptor estesi, uma reclassificação — são todas mais antigas do que os fósseis identificados até agora. Antes, só tínhamos fósseis de cobras com cerca de 100 milhões de anos, na transição do Cretácico Inferior para o Superior. Embora fragmentados, esses registos revelavam animais bastante diversos uns dos outros, indicando ter havido um caminho evolutivo já percorrido, e habitavam ecossistemas distintos em vários locais, como África e América do Norte e do Sul.
Mas as grandes questões na paleontologia das cobras mantinham-se em aberto. Pelos fósseis anteriores, via-se que a ordem dos escamados (Squamata), onde se incluem as cobras e os lagartos, se diversificou há mais de 100 milhões de anos, para ir dando origem a novas espécies. As cobras terão evoluído a partir dos lagartos. Mas exactamente quando, onde e como ocorreu essa diversificação dentro da ordem dos escamados eram questões em aberto.
O recuo do registo geológico em quase 70 milhões de anos, até aos 167 milhões de anos, graças às descobertas agora relatadas, aproxima os cientistas da origem das primeiras cobras. E mostra também que o aparecimento súbito de fósseis de cobras com 100 milhões de anos só reflecte uma lacuna nos registos e não a existência de uma explosão das espécies de cobras primitivas nessa altura, refere um comunicado da Universidade de Alberta. Assim, entre os 167 e os 100 milhões de anos, as cobras foram evoluindo em direcção a um corpo alongado e membros bastante reduzidos, como se pode observar nos fósseis de cobras com 100 milhões de anos da Cisjordânia, Líbano e Argentina. Embora pequenos, ainda tinham membros traseiros.
Para descrever as quatro cobras, a equipa não tinha esqueletos inteiros, mas, sendo elas tão velhas, pensa que todas conservavam ainda os membros tanto traseiros como dianteiros. O que não quer dizer que andassem: “É provável que deslizassem, embora os membros também possam ter sido usados para agarrar”, diz Michael Caldwell à Reuters.
Quando é que terão então aparecido as primeiras cobras? “É muito claro que as [quatro] cobras mais antigas não são as primeiras, por isso devem ter aparecido há muito mais de 167 milhões de anos”, responde-nos Michael Caldwell. “Diria que as primeiras cobras têm mais de 200 milhões de anos.”
Regresso a Lisboa
Perguntámos ainda ao paleontólogo canadiano como soube dos fósseis da cobra portuguesa? Conta então que esses exemplares faziam parte dos materiais levados para a Alemanha, na década de 1970, e que tinham sido erradamente classificados como lagartos. “Alguns materiais dos lagartos foram descritos por Annette Richter e Susan Evan na década de 1990, mas mantiveram-se em Berlim.” Em 2008, Michael Caldwell, contactou Miguel Ramalho, director do Museu Geológico, em Lisboa, para saber se os fósseis tinham entretanto voltado a Portugal. Não tinham.
Miguel Ramalho já andava há alguns anos a tentar que os fósseis da Guimarota viessem para o país de origem, como aliás tinha ficado acordado — os primeiros chegaram em 2007, incluindo os dos preciosos mamíferos primitivos. “Estão-se a descobrir coisas novas a partir de colecções antigas guardadas aqui no museu. Todos os anos, temos cerca de 50 investigadores nacionais e estrangeiros a estudar materiais”, frisa Miguel Ramalho.
Quanto aos fósseis de “lagarto”, Michael Caldwell também contribuiu para a sua devolução a Portugal e agora estão no Museu Geológico. Primeiro, localizou-os no laboratório de Annette Richter, em Berlim, e em seguida Miguel Ramalho pediu o seu regresso. “Eu e o meu colega Randy Nydam trouxemo-los para Lisboa em 2008. Estudámos os materiais aí, pedimo-los emprestados em 2012 e escrevemos o artigo”, diz o paleontólogo, que já os devolveu outra vez. “Desde então, tenho ido várias a Lisboa para ver os materiais.”


quinta-feira, fevereiro 19, 2015

Diversidade de ouriços-do-mar na Bacia Lusitânica durante o Mesozóico



Neste novo artigo liderado por Bruno Pereira (Univ. de Bristol + Univ. Nova de Lisboa) publicado na revista Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology, foi compilada a curva de diversidade de ouriços de mar (equinóide) para o Mesozóico da Bacia Lusitânica, Portugal. O sinal de diversidade foi testado tendo em consideração as rochas e factores ambientais. Entre as variáveis ​​testadas, a variação de fácies combinada com área de afloramento fornece a melhor correlação com a diversidade. Factores ambientais parecem ter tido qualquer influência na diversidade.


Equinoderme do Jurássico Superior de Portugal

Resumo
Várias análises sobre a evolução da diversidade ao longo do tempo geológico usam bases de dados sinóticos globais. Esta prática torna muitas vezes difícil distinguir verdadeiras mudanças na diversidade de artefactos de amostragem e/ou artefactos geológicos regionais. Aqui investigamos como a diversidade de equinóides mudou durante o Mesozóico da Bacia Lusitânica, em Portugal, com base numa base de dados abrangente e revista, e procurando distinguir o sinal biológico de constrangimentos geológicos ou ambientais. O padrão de diversidade observada está longe de ter uma tendência definida, mostrando muitas flutuações que parecem estar ligadas a lacunas no registo geológico. Este estudo revelou que, independentemente do método utilizado, se testes de correlação ou modelação linear, o sinal de diversidade não é totalmente explicado pelos métodos de amostragem estudados. Entre as diferentes aproximações, a variação das facies marinhas em combinação com área de afloramento melhor explicam a curva paleodiversidade.



Highlights

We compiled the Mesozoic echinoid diversity curve, from the Lusitanian Basin, Portugal.
The diversity signal was tested against rock and environmental proxies.
The facies variation combined with outcrop area provided the best approximation to diversity, between the variables tested.
Environmental proxies seem to have had no influence on diversity.
The results provide evidences for both the megabias and the common-cause hypotheses.

Abstract
Several analyses of diversity through geological time use global, synoptic databases, and this practice often makes it difficult to distinguish true signals in changing diversity from regional-scale sampling and/or geological artefacts. Here we investigate how echinoid diversity changed through the Mesozoic of the Lusitanian basin in Portugal based on a comprehensive, revised database, and seek to distinguish biological signal from geological or environmental constraints. The observed diversity pattern is far from having a defined trend, showing many fluctuations that appear to be linked with gaps in the geological record. This study revealed that, independently of the method used, whether correlation tests or model fitting, the diversity signal is not completely explained by the studied sampling proxies. Among the different proxies, marine facies variation in combination with outcrop area best explains the palaeodiversity curve.



Referência
Pereira, B. M. C., Benton M. J., Ruta M., & Mateus O. (2015). Mesozoic echinoid diversity in Portugal: investigating fossil record quality and environmental constraints on a regional scale. Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology.

A vida agitada e perigosa de Allosaurus fragilis


O novo artigo publicado no PeerJ reforça a vida agitada e perigosa do dinossauro carnívoro Allosaurus fragilis.

Esqueleto original de Allosaurus fragilis

Escápula de Allosaurus fragilis




Novas perspectivas sobre o estilo de vida de Allosaurus (Dinosauria: Theropoda) com base noutro espécime com múltiplas patologias

Os terópodes (dinossauros carnívoros) adultos de grande porte são frequentemente encontrados com numerosas patologias. Um grande e quase completo, espécime provavelmente adulto de Allosaurus do Howe Stephens Quarry, Formação Morrison, Wyoming, mostra várias patologias. Ossos patológicos incluem o dentário esquerdo, duas vértebras cervicais, uma cervical e várias costelas dorsais, a escápula esquerda, o úmero esquerdo, ísquio direito, e duas falanges do pé. Estas patologias podem ser classificadas da seguinte forma: a quinta vértebra cervical, escápula, várias costelas e ísquio estão traumátizadas, e um calo na falange II-2 é traumático-infecciosa. Traumaticamente elementos fraturados expostos ao movimento frequente (por exemplo, a escápula e as costelas) mostram uma tendência a desenvolver pseudartroses em vez de calo. As patologias na quarta cervical são mais susceptíveis de serem idiopática, e no úmero esquerdo é infecciosa ou idiopática, enquanto pedal esquerdo falange IV-1 é classificada como idiopática. Com excepção do ísquio, todos os elementos patológicos traumáticas / traumáticas infecciosa mostrar evidências inequívocas de cura, o que indica que as respectivas patologias não causou a morte desse indivíduo. Alinhamento das patologias na escápula e de costelas do lado esquerdo sugere que tudo pode ter sido causado por um único evento traumático. A fratura isquiática pode ter sido fatal. A ocorrência de múltiplas patologias traumáticas novamente sublinha que terópodes de grande porte experimentou lesões frequentes durante a vida, o que indica um estilo de vida predatório activo. Sinais de infecções são escassas e restringidas localmente, indicando o sucesso na prevenção da disseminação de agentes patogénicos, como é o caso nos répteis existentes (incluindo as aves).


New insights into the lifestyle of Allosaurus (Dinosauria: Theropoda) based on another specimen with multiple pathologies
Abstract:
Adult large-bodied theropods are often found with numerous pathologies. A large, almost complete, probably adult Allosaurus specimen from the Howe Stephens Quarry, Morrison Formation (Late Kimmeridgian–Early Tithonian), Wyoming, shows multiple pathologies. Pathologic bones include the left dentary, two cervical vertebrae, one cervical and several dorsal ribs, the left scapula, the left humerus, right ischium, and two left pedal phalanges. These pathologies can be classified as follows: the fifth cervical vertebra, the scapula, several ribs and the ischium are traumatic, and a callus on the shaft of the left pedal phalanx II-2 is traumatic-infectious. Traumatically fractured elements exposed to frequent movement (e.g. the scapula and the ribs) show a tendency to develop pseudarthroses instead of callus healing. The pathologies in the lower jaw and a reduced flexor tubercle of the left pedal phalanx II-2 are most likely traumatic or developmental in origin. The pathologies on the fourth cervical are most likely developmental in origin or idiopathic, that on the left humerus is infectious or idiopathic, whereas left pedal phalanx IV-1 is classified as idiopathic. With exception of the ischium, all traumatic / traumatic-infectious pathologic elements show unambiguous evidences of healing, indicating that the respective pathologies did not cause the death of this individual. Alignment of the scapula and rib pathologies from the left side suggests that all may have been caused by a single traumatic event. The ischial fracture may have been fatal. The occurrence of multiple traumatic pathologies again underlines that large-bodied theropods experienced frequent injuries during life, indicating an active predatory lifestyle, and their survival perhaps supports a gregarious behavior for Allosaurus. Signs of infections are scarce and locally restricted, indicating a successful prevention of the spread of pathogens, as it is the case in extant reptiles (including birds).




Foth C, Evers S, Pabst B, Mateus O, Flisch A, Patthey M, Rauhut OWM.(2015) New insights into the lifestyle of Allosaurus (Dinosauria: Theropoda) based on another specimen with multiple pathologies. PeerJ PrePrints3:e824v1 http://dx.doi.org/10.7287/peerj.preprints.824v1

domingo, janeiro 25, 2015

Porque é que os dinossauros eram tão grandes?


O Jornal i e a Ciência Viva têm uma colaboração diária com uma pergunta científica e respondida por investigadores nacionais. 

Desta vez foi "Porque é que os dinossauros eram tão grandes?" e coube-me dar a resposta.




Os dinossauros eram tão grandes porque durante milhões de anos ocorreu uma “corrida evolutiva ao armamento” com vantagens em ser grande: os carnívoros cresceram para poderem caçar presas maiores e estas cresceram para escapar aos predadores. Numerosas linhagens de dinossauros, carnívoros e herbívoros, tornaram-se gigantes. Além disso os dinossauros tinham adaptações que facilitaram o gigantismo: uma respiração muito eficiente, ossos com sacos de ar, crescimento muito rápido e estruturas esqueléticas que suportavam muito peso.

O ambiente e o tempo também ajudaram porque havia abundância de oxigénio e longos períodos de estabilidade que permitem o crescimento da massa corporal nas linhagens (regra de Cope).

Alguns dinossauros foram os maiores animais que alguma vez caminharam sobre a terra. Alguns dos gigantes saurópodes herbívoros atingiam 40 metros de comprimento. Curiosamente, os maiores animais de sempre ainda vivem hoje: as baleias. A baleia-azul é o maior animal que alguma vez existiu e o cachalote o maior de todos os predadores de sempre. Nem todos os dinossauros eram gigantes e alguns atingiam o tamanho menor que um melro. Na verdade, como as aves são dinossauros, o menor de todos é o minúsculo colibri, como pouco mais de 2 cm de comprimento. Contudo, é verdade que a maioria dos dinossauros do Mesozóico eram de grande porte.

Relação entre poros de cascas de ovos e metabolismo dos dinossauros


O metabolismo e paleotemperatura corporal de animais extintos é um dos grandes mistérios na paleontologia. Fizeram-se muitas abordagem usando isótopos, histologia, anatomia comparada, etc. Numa nova abordagem mostra-se que o número, densidade e dimensão dos poros existentes nas cascas de ovos dos diferentes animais está correlacionado com o metabolismos.
No último congresso SVP foi apresentado um trabalho que mostrava exactamente isso. O trabalho foi assinado por Max Stockdale, Mike Benton e Octávio Mateus.





Abstract
The amniote eggshell functions as a respiratory structure adapted for the optimal transmission of respiratory gasses to and from the embryo according to its physiological requirements. Therefore amniotes with higher oxygen requirements, such as those that sustain higher metabolic rates, can be expected to have eggshells that can maintain a greater gas flux to and from the egg. Studies of extant amniotes have found that eggshells of reduced porosity impose a limit on the metabolic rate of the offspring. Here we show a highly significant relationship between metabolic rates and eggshell porosity in extant amniotes that predicts highly endothermic metabolic rates in dinosaurs. This study finds the eggshell porosity of extant endotherms to be significantly higher than that of extant ectotherms. Eggshell porosity values of dinosaurs are found to be significantly higher than that of extant ectotherms, but not extant endotherms. Dinosaur eggshells are commonly preserved in the fossil record, and porosity may be readily identified and measured. This provides a simple tool to identify metabolic rates in extinct egg-laying tetrapods whose eggs possessed a mineralized shell.

Stockdale, M., Benton M., & Mateus O. (2014).  Cracking dinosaur endothermy: paleophysiology unscrambled. Journal of Vertebrate Paleontology. Program and Abstracts, 2014, 235-236. PDF

Nova espécie de plesiossauro do Cretácico de Angola

Cardiocorax mukulu é o nome da nova espécie de plesiossauro escavada pelo Projecto PaleoAngola no Namibe, no sul de Angola. O artigo que saiu agora no Netherlands Journal of Geosciences é o resultado da dissertação de Ricardo Araújo (SMU) integrado no Projecto PaleoAngola e contou ainda com a participação de Mike Polcyn, Anne Schulp, Octávio Mateus, Louis Jacobs, Olímpio Gonçalves and Maria Luísa Morais, dos Estados Unidos, Holanda, Portugal e Angola.
Os ossos coracóides desta espécie criam um espaço em forma coração, o que dá o seu nome Cardio + corax, e mukulu significa ancestral/antigo em Bantu.
À semelhança dos outros elasmossauros, o Cardiocorax seria um animal marinho de pescoço longo, piscívoro.





Resumo:
Nós relatamos aqui um novo elasmossaurídeo do Maastrictiano inferior de Bentiaba, do sul de Angola. A análise filogenética coloca o novo taxon como irmão de Styxosaurus snowii, e esse clado como irmão de um clado composto por (Hydrotherosaurus alexandrae (Libonectes morgani + Elasmosaurus platyurus)). O novo táxon tem uma lâmina dorsal reduzida da escápula, uma característica única entre elasmossaurídeos, mas convergente com plesiossauros criptoclídeos, e indica um ciclo longitudinal de retração-protracção do membro, em estilo de remar, com a rotação simples na articulação glenoumeral. Análise filogenética morfométrica dos coracóide de 40 táxones de eossauropterígios sugere que houve uma ampla gama de estilos de natação dentro do clado.

Abstract: We report here a new elasmosaurid from the early Maastrichtian at Bentiaba, southern Angola. Phylogenetic analysis places the new taxon as the sister taxon to Styxosaurus snowii, and that clade as the sister of a clade composed of (Hydrotherosaurus alexandrae (Libonectes morgani + Elasmosaurus platyurus)). The new taxon has a reduced dorsal blade of the scapula, a feature unique amongst elasmosaurids, but convergent with cryptoclidid plesiosaurs, and indicates a longitudinal protraction-retraction limb cycle rowing style with simple pitch rotation at the glenohumeral articulation. Morphometric phylogenetic analysis of the coracoids of 40 eosauropterygian taxa suggests that there was a broad range of swimming styles within the clade.




Araújo, R., Polcyn M. J., Schulp A. S., Mateus O., Jacobs L. L., Gonçalves O. A., & Morais M. - L. (2015). A new elasmosaurid from the early Maastrichtian of Angola and the implications of girdle morphology on swimming style in plesiosaurs. Netherlands Journal of Geosciences. FirstView, 1–12., 1
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sexta-feira, janeiro 23, 2015

Bolsas em Geociências 2014 com recuperação e distribuição mais justa

Após o descalabro do ano passado, com apenas 4 bolsas atribuídas em Geociências pela FCT e praticamente a uma só universidade, este ano assistimos a uma recuperação (9 bolsas) e a uma distribuição mais justa entre as universidades portuguesas, a julgar pela origem dos candidatos.


Número de bolsas no concurso nos últimos três anos:
2012: 16
2013: 4
2014 (anunciadas agora): 9

domingo, janeiro 18, 2015

Novo livro de estratigrafia: 'STRATI- At the Cutting Edge of Stratigraphy'

Foi lançado recentemente na Universidade Nova de Lisboa o livro "STRATI 2013 - First International Congress on Stratigraphy - At the Cutting Edge of Stratigraphy" publicado pela Springer.

O Departamento de Ciências da Terra da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa teve uma participação de peso pois os editores foram Rogério Rocha, João Pais, José Carlos Kullberg e Stanley Finney.

Referência:
Rocha et al. (eds) (2014). STRATI 2013 - First International Congress on Stratigraphy
At the Cutting Edge of Stratigraphy. Springer Geology. ISBN 978-3-319-04363-0 ISBN 978-3-319-04364-7 (eBook). DOI 10.1007/978-3-319-04364-7.
Link para Springer
Capa e página 3 do livro Strati 2013


O livro de 1335 páginas é o resultado do I Congresso Internacional de Estratigrafia, que decorreu em Lisboa em 2013 e torna-se uma referência da estratigrafia mundial. Contém algumas referências a Portugal e dinossauros.Um dos trabalhos é referente à estratigrafia do Porto da Calada com a transição Jurássico/Cretácico em Portugal.

Salminen, J., Dinis J., & Mateus O. (2014). Preliminary Magnetostratigraphy for the Jurassic–Cretaceous Transition in Porto da Calada, Portugal. (Rogério Rocha, João Pais, José Carlos Kullberg, Stanley Finney, Ed.).STRATI 2013 First International Congress on Stratigraphy At the Cutting Edge of Stratigraphy. 873-877., Heidelberg New York Dordrecht London: Springer. PDF LINK 

Porto da Calada com a indicação da transição Jurássico / Cretácico (Mateus et al., in press). 


segunda-feira, janeiro 05, 2015

Jornal norte-americano escolhe dinossauro da Lourinhã entre as "15 descobertas mais magníficas de dinossauros de 2014"

O dinossauro carnívoro Torvosaurus gurneyi do Jurássico Superior da Formação da Lourinhã, foi considerada uma das "15 descobertas mais magníficas de dinossauros de 2014", sendo a única da Europa. A escolha foi feita pelo jornal de notícia online norte-americano Huffington Post, e incluiu ainda novas espécies ou novos achados. A lista total é:
  1. Aquilops americanus
  2. Tachiraptor admirabilis
  3. Rhinorex condrupus
  4. Rukwatitan bisepultus
  5. Dreadnoughtus schrani,
  6. Laquintasaura venezuelae
  7. Changyuraptor yangi
  8. Anzu wyliei
  9. Mercuriceratops gemini
  10. Qianzhousaurus sinensis
  11. Torvosaurus gurneyi
  12. Novo espécime de Microraptor
  13. Novo espécime de Spinosaurus aegyptiacus
  14. Novo espécime de Argentinosaurus 
  15. Novo espécime de Deinocheirus mirificus
O Torvosaurus gurneyi foi baptizado no início de 2014 pelos paleontólogos Christophe Hendrickx e Octávio Mateus da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UNL e do Museu da Lourinhã.

sexta-feira, dezembro 26, 2014

Geologia de Bentiaba, Angola

A geologia e a riqueza faunística de Bentiaba em Angola sempre nos causou admiração. Um estudo do Projecto PaleoAngola, agora publicado, explica a geologia e paleoecologia da acumulação de ossos (bonebed) marinha do Cretácico Superior na camada 19 de Bentiaba.
O estudo fez parte da dissertação de doutoramento de Chris Strganac sendo publicado agora no Netherlands Journal of Geosciences.
Bentiaba com riqueza de achados

Resumo:
Esqueleto de Prognathodon com conteúdos estomacais.
A acumulação de ossos (bonebed) na camada 19 em Bentiaba, Angola, é uma concentração única de vertebrados marinhos preservando seis espécies de mosassauros em sedimentos correlacionadas por magneto-estratigrafia ao Chron C32n.1n entre 71,4 e 71,64 Ma. A bonebed formada numa paleolatitude perto de 24 ° S e com uma largura do Atlântico àquela latitude de 2700 km, que é cerca de metade da largura da actual. A localidade encontra-se numa plataforma continental estranhamente estreita perto das falhas transformantes que controlavam o contorno do litoral da África na formação do Oceano Atlântico Sul. Mudanças biostratigráficas através da seção de Bentiaba indicam que a acumulação ocorreu numa faixa de tempo de 240.000 de anos dentro da chron 32n.1n. A fauna ocorre numa unidade de 10 m areia na Formação Mocuio com ossos e esqueletos incompletos concentrados aos 1-2 m mais basais, mas não limitados a estes. O sedimento que cobre os fósseis é uma areia feldspática imatura demonstrado por zircões detríticos derivados das rochas graníticas. As amostras não parecem ter uma forte orientação preferencial e não é concentrada numa linha de costa. Análise de isótopos estáveis de oxigénio de conchas de bivalves associados indica uma temperatura de água de 18,5 ° C. A bonebed é claramente misturada com elementos de dinossauros e pterossauros dispersos num cortejo de fauna marinha. A associação de conteúdos estomacais e marcas de dentes de tubarão na Camada 19 indicam associação biológica devido às atividades de alimentação. A diversidade ecológica de espécies de mosassauros é mostrada pela disparidade de dente e tamanho do corpo e pela análise d13C do esmalte dos dentes, o que indica uma variedade de áreas de alimentação e nichos alimentares. A fauna da camada 19 viveu em latitudes áridas ao longo de um deserto costeiro semelhante ao da Namíbia moderna, numa plataforma continental estreita e tectonicamente controlada, em águas rasas abaixo base de ondas. A área foi usada como uma área de alimentação para diversas espécies, incluindo Globidens phosphaticus, pequenas espécies costeiras, abundante Prognathodon kianda, que alimentava de outros mosassauros na camada 19, e espécies que podem ter sido alimentadores oportunistas na área.


Geological setting and paleoecology of the Upper Cretaceous Bench 19 Marine Vertebrate Bonebed at Bentiaba, Angola

Abstract:
The Bench 19 Bonebed at Bentiaba, Angola, is a unique concentration of marine vertebrates preserving six species of mosasaurs in sediments best correlated by magnetostratigraphy to chron C32n.1n between 71.4 and 71.64 Ma. The bonebed formed at a paleolatitude near 24°S, with an Atlantic width at that latitude approximating 2700 km, roughly half that of the current width. The locality lies on an uncharacteristically narrow continental shelf near transform faults that controlled the coastal outline of Africa in the formation of the South Atlantic Ocean. Biostratigraphic change through the Bentiaba section indicates that the accumulation occurred in an ecological time dimension within the 240 ky bin delimited by chron 32n.1n. The fauna occurs in a 10 m sand unit in the Mocuio Formation with bones and partial skeletons concentrated in, but not limited to, the basal 1–2 m. The sediment entombing the fossils is an immature feldspathic sand shown by detrital zircon ages to be derived from nearby granitic shield rocks. Specimens do not appear to have a strong preferred orientation and they are not concentrated in a strand line. Stable oxygen isotope analysis of associated bivalve shells indicates a water temperature of 18.5°C. The bonebed is clearly mixed with scattered dinosaur and pterosaur elements in a marine assemblage. Gut contents, scavenging marks and associated shed shark teeth in the Bench 19 Fauna indicate biological association and attrition due to feeding activities. The ecological diversity of mosasaur species is shown by tooth and body-size disparity and by d13C analysis of tooth enamel, which indicate a variety of foraging areas and dietary niches. The Bench 19 Fauna was formed in arid latitudes along a coastal desert similar to that of modern Namibia on a narrow, tectonically controlled continental shelf, in shallow waters below wave base. The area was used as a foraging ground for diverse species, including molluscivorus Globidens phosphaticus, small species expected near the coast, abundant Prognathodon kianda, which fed on other mosasaurs at Bench 19, and species that may have been transient and opportunistic feeders in the area.


Referência:
Strganac, C., Jacobs L., Polcyn M., Mateus O., Myers T., Araújo R., Fergunson K. M., Gonçalves A. O., Morais M. L., Schulp A. S., da Tavares T. S., & Salminen J. (2014). Geological Setting and Paleoecology of the Upper Cretaceous Bench 19 Marine Vertebrate Bonebed at Bentiaba, Angola. Netherlands Journal of Geosciences. 1-16.
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sábado, dezembro 20, 2014

Ooops natalício

O blog Lusodinos deseja Boas Festas e feliz 2015 a todos os seus leitores!

sábado, dezembro 06, 2014

Paleobotânica em Portugal


Ao estudo das plantas fósseis dá-se o nome de Paleobotânica. E o facto talvez desconhecido para muitosé que além de vertebrados e invertebrados, Portugal é extremamente rico em plantas fósseis. Para isso muito têm contribuído os trabalhos de João Pais, Mário Miguel Mendes, Else Marie Friis, Kaj Raunsgaard Pedersen, Peter R. Crane, Carlos Teixeira e muitos outros.

Destacam-se as plantas do Cretácico Inferior da Bacia Lusitânica, que incluem algumas das mais antigas evidências de angiospérmicas e uma espectacular diversidade de formas e táxones.

Feto (Pterodófita) fóssil do Paleozóico de Portugal (ML)
Alguns géneros e espécies na paleobotânica de Portugal
Esta é uma lista, longe de ser ou tentar ser exaustiva, de alguns táxones de plantas fósseis em Portugal: Acrostichopteris, Alethopteris, Alisporites, Annonxylon teixeirae, Araucarites, Asterophyllites, 
Baiera viannaeBicatia costata, Bicatia juncalensi, Biretisporites, Brachyphyllum lusitanicum
Calamites suckowii, Cicatricosisporites, Converrucosisporites, Cordaites, Cupressinocladus micromerum, Cyclopteris, Czekanowskia, 
Densoisporites, Desmiophyllum, Dicksonites, 
Erdtmanispermum juncalenseErdtmanitheca portucalensis, Elatides falcifolia, Equisetites, Equisetum, Frenelopsis, Ginkgo, Gleicheniidites, Ischyosporites teixeirae 
Kraeuselisporites, 
Marchantites archantiaeformis, Mariopteris, Myrica, Monetianthus mirus, 
Neuropteris, Nilsonia, Otozamites, 
Pagiophyllum lusitanicum, Pecopteris, Picea, Pinus fluvimajoricus, Podozamites, Pseudocycas, Pterophyllum, 
Quercus, Raunsgaardispermum lusitanicum
Salix, Schizoneura, Sequoia, Sparganium, Sphenophyllum, Sphenolepis sternbergiana, Sphenolepis choffati, Sphenopteris, Spheripollenites, 
Taeniopteris, Teixeiraea, Toddalia, Todites falciformis
Verrucosisporites, Vitis, Zamites




Referências de alguns artigos científicos:
Friis, E. M., Pedersen, K. R., & Crane, P. R. (2000). Reproductive structure and organization of basal angiosperms from the Early Cretaceous (Barremian or Aptian) of western Portugal. International Journal of Plant Sciences161(S6), S169-S182.
Friis, E. M., Pedersen, K. R., & Crane, P. R. (2004). Araceae from the Early Cretaceous of Portugal: evidence on the emergence of monocotyledons.Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America101(47), 16565-16570.
Rydin, C., Pedersen, K. R., Crane, P. R., & Friis, E. M. (2006). Former diversity of Ephedra (Gnetales): evidence from Early Cretaceous seeds from Portugal and North America. Annals of Botany98(1), 123-140.
Heimhofer, U., Hochuli, P. A., Burla, S., & Weissert, H. (2007). New records of Early Cretaceous angiosperm pollen from Portuguese coastal deposits: Implications for the timing of the early angiosperm radiation. Review of Palaeobotany and Palynology144(1), 39-76.
Mendes, M. M., Friis, E. M., & Pais, J. (2008). < i> Erdtmanispermum juncalense
sp. nov., a new species of the extinct order Erdtmanithecales from the Early Cretaceous (probably Berriasian) of Portugal. Review of Palaeobotany and Palynology149(1), 50-56.Pais, J. (2009). Évolution de la végétation et du climat pendant le Miocène au Portugal. Ciências da Terra8.

quarta-feira, dezembro 03, 2014

Anatomia, Antropologia e Evolução Humana

"Anatomia, Antropologia e Evolução Humana" é o tema da palestra por Prof. Rui Diogo no dia 17 de Dezembro de 2014 na FCT- Universidade Nova de Lisboa enquadrado no Ciclo de Palestras "Geológicas às Quartas" do Departamento. de Ciências da Terra e com o apoio da FLAD, Fundação Luso Americana para o Desenvolvimento.
Apareça!


Data: 17 de Dezembro de 2014, Quarta-feira, pelas 14:30
Local: Biblioteca da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, (GPS: 38,66267, -9,20553)

Link da palestra para site DCT

Rui Boliqueime Martins Diogo é Professor na Universidade de Howard, e diretor e patrono do Rui Diogo Lab. Rui Diogo é um excelente anatomista pelo que recebeu muitos prémios, entre eles recebeu este ano o Award for Best Anatomical Paper.
Tem numerosos artigos e livros publicados, sobretudo sobre anatomia, desde peixes a primatas. A anatomia que estuda tem implicações para a compreensão da nossa origem como primatas.

Livro:
  • Morphological Evolution, Aptations, Homoplasies, Constraints and Evolutionary Trends: Catfishes as a case study on general phylogeny and macroevolution (p. 491). Enfield, New Hampshire: Science Publishers. 2005.
  • Comparative Anatomy and Phylogeny of Primate Muscles and Human Evolution
  • Muscles of Vertebrates
Exemplos de artigos:
Diogo, R., Abdala, V., Lonergan, N., & Wood, B. A. (2008). From fish to modern humans–comparative anatomy, homologies and evolution of the head and neck musculature. Journal of anatomy, 213(4), 391-424.

Diogo, R. (2007). The origin of higher clades: osteology, myology, phylogeny and evolution of bony fishes and the rise of tetrapods. Science Pub Incorporated.


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segunda-feira, novembro 17, 2014

Concurso Internacional de Ilustração de Dinossauros 2015

O Concurso Internacional de Ilustração de Dinossauros está de volta, com novo prazo de entrega de obras até dia 15 de Janeiro de 2015.
Concurso Internacional de Ilustração de Dinossauros
Ilustração por Fabio Pastori apresentada no último concurso
O regulamento disponível no site do Museu da Lourinhã (link)



  1. Organização: O Concurso Internacional de Ilustração de Dinossauros é organizado pelo Grupo de Etnologia e Arqueologia da Lourinhã (GEAL), entidade que tutela o Museu da Lourinhã.
  2. Tema: Dinossauros e outros animais extintos. As ilustrações podem representar reconstituição de vida dos animais, eventualmente no seu meio ambiente, ou fósseis encontrados.
  3. Prémios: Os prémios são monetários e pagos em Euros.

    1º Lugar - 1000 Euros
    2º Lugar -   500 Euros
    3º Lugar -   250 Euros
    5 Menções Honrosas - 50 Euros cada
  4. Júri: A composição do Júri será anunciada oportunamente.
    As decisões do Júri são finais e não admitem recurso. O Júri reserva-se o direito de não atribuir um ou mais dos prémios se a qualidade dos trabalhos assim o justificar. O concurso só s
  5. e realizará caso haja um mínimo de dez concorrentes com submissões válidas.
  6. Participação: Podem concorrer todas as pessoas, de nacionalidade Portuguesa ou estrangeiras, com mais de 15 anos.
  7. Identificação das obras: As obras devem ser acompanhadas da identificação clara e inequívoca do autor, incluindo obrigatoriamente o nome, idade, nacionalidade, e-mail, telefone e endereço postal completo, incluindo o país. No título da obra devem constar os nomes das espécies ilustradas.
  8. Número de obras: Cada participante pode concorrer com qualquer número de obras.
  9. Dimensões e técnicas: Não há restrições à dimensão das obras. Todas as técnicas de ilustração e materiais são aceites. Valoriza-se a entrega, junto com a obra, de CD com a digitalização da mesma.
  10. Imagens digitais: As imagens digitais devem ter a definição mínima de 300 dpi, tamanho real, não comprimido. Além do CD deve ser enviada uma cópia impressa com boa qualidade. Este material não será devolvido.
  11. Exclusão de admissibilidade: Não são admissíveis a concurso obras sem carácter científico, nomeadamente banda desenhada, cartoons e caricaturas, bem como obras submetidas a anteriores edições do CIID.
  12. Critérios de avaliação das obras: As obras são avaliadas pelo seu rigor científico e qualidade das técnicas utilizadas.
    Valoriza-se:
    • Ilustrações de espécies portuguesas.
    • Ilustrações de espécies representadas no Museu da Lourinhã, em particular dos seus holótipos, a saber: Lourinhanosaurus antunesiKuehneodon hahni,Dinheirosaurus lourinhanensisDraconyx loureiroiAllosaurus europæusMiragaia longicollumImocetus piscatusGlobicetus hiberusTorvosaurus gurneyi e Zby atlanticus .
    • Ilustrações de fósseis.
  13. Calendário:
    • Submissão das obras a concurso: até 15 de janeiro de 2015
  14. Envio das obras: As obras podem ser enviadas por correio, a expensas do autor, ou entregues por mão própria no Museu da Lourinhã. Não são aceites obras enviads por e-mail.

    Morada para envio:
    CIID - 2014 - Museu da Lourinhã
    Rua João Luís de Moura, 95
    2530-158 Lourinhã
    PORTUGAL
    Notas:
    • O GEAL - Museu da Lourinhã não se responsabiliza por danos ou extravio do material enviado ao concurso.
    • A organização do concurso não cobre seguro nem taxas alfandegárias.
  15. Devolução das obras: As obras serão devolvidas a partir de abril de 2015 e poderão ser levantadas na morada de entrega ou devolvidas por correio. Não são cobertos custos de devolução das obras superiores a 40,00 Euros (Quarenta Euros), despesas alfandegárias ou seguros.
  16. Direitos de reprodução: Ao submeter uma obra a concurso o autor está implicitamente a aceitar o presente Regulamento e a conferir ao GEAL - Museu da Lourinhã os direitos não exclusivos de reprodução da obra, e divulgação do concurso, incluindo mas não exclusivamente, em livros, Internet, material promocional, edições, publicações, apoio museológico e estudos científicos, comprometendo-se o GEAL a mencionar sempre o respectivo autor. Está igualmente a garantir ao GEAL que os direitos concedidos não colidem, por fora alguma, com quaisquer direitos de outrem.
  17. Contactos:

    GEAL - Museu da Lourinhã
    Rua João Luís de Moura, 95
    2530-158 Lourinhã
    PORTUGAL

    Tel.: [+351] 261 413 995 / [+351] 261 414 003
    E-mail: geral@museulourinha.org
    http://www.museulourinha.org

Rules in English at http://museulourinha.org/en/CIID.htm

sexta-feira, novembro 14, 2014

Paleontologia de Angola em Mestrado premiado pela Universidade de Évora



Realizou-se no passado dia 1 de Novembro a sessão comemorativa de mais um aniversário da Universidade de Évora, com a cerimonia de abertura solene do ano lectivo. Esta cerimónia, onde têm lugar os tradicionais discursos da Reitora, do Presidente do Conselho Geral e do Presidente da Associação Académica, é também marcada pela imposição das insígnias aos novos doutores e pela atribuição de bolsas de estudo e prémios de mérito aos alunos com o melhor desempenho académico do ano anterior.

A Joana Bruno, que desenvolveu o seu trabalho final de mestrado em Ilustração Científica no âmbito das actividades do Projecto PaleoAngola, diplomou-se com média final de 19 valores e foi distinguida como a melhor aluna de Mestrado da Universidade de Évora no ano 2013/2014, tendo recebido o prémio de excelência da Universidade de Évora/Novo Banco.

A Joana dedicou o seu trabalho final de mestrado à ilustração e reconstrução de espécies extintas de Angola. O trabalho final de mestrado, intitulado «Vertebrados fósseis do Cretácico e Cenozóico de Angola: a comunicação e divulgação de Ciência através da Ilustração Científica», orientado por Octávio Mateus e Pedro Salgado, foi aprovado com 20 valores em Janeiro passado.